Não me lembro ao certo como começou, talvez porque tal como toda a gente queria que notassem em mim, que de uma forma geral me prestassem atenção, que me ouvissem porque queriam ouvir e porque achavam que o que dizia era importante, não sei, honestamente não sei, até porque nem sabia o que era até há relativamente pouco tempo...
Lembro-me de ser mais nova, fechar-me no quarto e simplesmente chorar, ou de sair para o jardim e chorar tanto que custava a respirar. Lembro-me dos episódios vagamente, não sei o motivo em concreto mas lembro-me da sensação, de parecer que o mundo estava a acabar, do nó na garganta, da súbita dor de cabeça que parecia que me ia fazer explodir, e da sensação que o ar que havia não era suficiente para eu respirar, talvez por isso gostasse de chorar sozinha no jardim a levar com a brisa de ar na cara, lembro-me que isso por norma ajudava um pouquinho a acalmar-me.
Lembro-me de uma vez, num relacionamento anterior, tive um bastante grave e meio que foi isso que me fez perceber que tinha esta doença. Disseram-me algo que não estava a espera, algo que me tinham feito e que ia contra todos os meus ideais, e fiquei com tanta raiva que tudo desapareceu e eu só queria desaparecer, chorei até não aguentar mais e nem sei bem como me acalmei. Aliás até sei, o facto de quase ir parar ao hospital e o facto de eu os odiar, meio que fez um click na minha cabeça e me ajudou a acalmar dessa vez.
Depois desse incidente, que tinha sido o único que tinha acontecido na presença de outra pessoa, voltei a fechar-me e a ser mais forte e a controlar-me mais, conseguia evitar que acontecessem.
4 anos passaram, ainda mal estávamos juntos quando devido ao burnout e stress no trabalho, conjugado com as poucas horas de sono e uma má alimentação, voltou a acontecer, desta vez na tua frente.
Não me lembro de tudo ao certo porque meio que perco a memória em alguns destes episódios de ansiedade mas lembro-me de me levares para a rua, de me protegeres para que não me vissem assim porque sabias mesmo sem saber que eu não queria ser vista assim. Pela primeira vez deixei que me agarrassem durante um episódio, algo que para mim até então era impensável porque me sentia claustrofóbica mas a realidade é que resultou.
Agarraste-me com força com o meu ouvido no teu peito enquanto eu tentava fazer força com a minha mão também contra o teu peito para que me largasses, até deixar de o fazer. Lembro-me de me pedires para ter calma e me ajudares pela primeira vez a respirar porque achaste que eu iria desmaiar, e talvez fosse de tanto hiperventilar.
Acalmei-me e voltámos ao trabalho, mas até hoje lembro-me do me disseste depois de te pedir desculpa por teres presenciado aquilo: "(...) mas aconteceu e foi a minha frente, e eu fiquei preocupado contigo. Não é que isso me chateie [ter o ataque de pânico] porque não faz mal teres tido a minha frente, simplesmente não sabia o que fazer (...) senti-me inútil na altura (...)".
E talvez pela tua genuinidade e honestidade, talvez por te preocupares, eu senti-me segura pela primeira vez, fizeste-me acreditar que estarias sempre lá para mim e que me irias ajudar. Talvez por isso, e também por tudo o resto que fazes e demonstras por mim, que me tenha soltado, e tenha passado a conseguir ter os ataques perto de ti para que me possas ajudar a ficar bem em vez de lidar com tudo isso sozinha.
Comentários
Enviar um comentário